30 de agosto de 2009

Parte 17

Então eu percebi que também estava chorando, havia lágrimas em meu rosto, e eu sentia uma dor em mim ao vê-lo daquele jeito. Com tudo que ele tinha dito, eu me coloquei em seu lugar, e eu não sabia como confortá-lo. Eu não conseguia achar as palavras certas. Coloquei a mão em seu queixo levemente, fazendo-o olhar em meus olhos.
– Vai passar – Falei
– Isso é a coisa que mais ouço há dois anos – Falou num tom de revolta.
– Quero dizer, é como uma tempestade, ela vai causando danos, e fazendo uma bagunça aí dentro, – apontei pra seu peito – mas uma hora ela vai acalmar, mesmo que dure uma noite inteira e sabendo que cedo ou tarde ela voltará. – Ele me olhava prestando atenção, mas um pouco confuso – O que eu digo, é que mesmo que sua dor dure muito tempo, mesmo que isso tenha causado danos em você, algo vai ocupar essa dor, e não importa o que seja, mesmo que ela volte a te machucar novamente. – Agora ele parecia pensativo, não mais confuso. Ele não estava mais chorando, só restavam algumas lágrimas secas por suas bochechas, e nas minhas também. – Bom, agora vou voltar pra mesa. E você também deveria fazer o mesmo, acho que estão preocupados.
– É. – Falou ele assentindo com a cabeça – Só vou me recuperar um pouco.
– Então... é isso – Falei enquanto me preparava pra levantar, mas antes disso ele segurou minha mão, meu coração parou e eu gelei automaticamente.
– Beatrice, obrigado.
– Por quê? – Eu realmente não sabia o motivo.
– Er... por ter me dado essa força, você realmente me fez crer que isso vai passar algum dia. É que você me passou segurança, e dividiu essa dor comigo. Não sei bem explicar. – Ele parecia se complicar com as palavras.
– Não foi nada. De verdade. Eu me sinto bem por saber que você ta melhor.
Ele deu um sorriso que me parecia bem sincero.
– Ah, outra coisa. Desculpa.
– Desculpa? Pelo quê eu deveria te desculpar?
– Você sabe, pelas quedas, e por ter sido tão grosso contigo, eu realmente achava que você era mais uma daquelas patricinhas idiotas. – Ele deu um sorriso de lado meio tímido. Ainda segurava minhas mãos, e me olhou esperando uma resposta. Eu demorei a absorver o fato de que ele achava que eu era um tipo de garota daquelas que eu odeio e por isso tinha sido rude comigo.
– Hã... não se preocupa com isso. E ah, você se enganou feio com a suposição de que sou alguma “patricinha”.
– Eu sei – Ele ainda estava com o sorriso, digamos que perfeito, no rosto. Mas a expressão dele parecia surpresa e ao mesmo tempo de achando algo engraçado quando ele olhou pra algo atrás de mim. – Olha só – falou balançando a cabeça como algo que parecia desaprovação. Olhei pra trás e vi Meg e o garoto que tínhamos visto antes no maior amasso. Estavam encostados no canto portão por trás de algumas plantas, do outro lado da piscina. – Mais uma vítima de Meg – Disse no mesmo tom de desaprovação de antes.
Eu ri e olhei pra mão dele que continuava na minha.
– Desculpa – Ele falou tirando a mão de cima da minha como se de repente ela tivesse começado a pegar fogo.
– Nã-ão, eu não me incomodo – Falei dando um sorriso meio tímido e quase o obrigando a colocá-la lá de volta. Mas ele não segurou, apenas correspondeu meu sorriso.
– É melhor irmos pra mesa – Disse ele se levantando, fiz o mesmo ainda sem acreditar que eu tinha estado no meu jardim com Gabriel, onde geralmente eu ficava sozinha e deprimida.
Chegamos à mesa e nos sentamos. Ele no lugar vazio ao lado da Sra Cecília e eu ao lado de meu pai.
– Onde estavam? – Perguntou minha mãe
– Quando eu tava voltando do toalete vi Gabriel com umas pessoas, e ficamos conversando. – Falei
– Ah, com quem, filha? – Perguntou meu pai
– Não lembro o nome, pai. – Falei como se fosse óbvio
– Você lembra Gabriel? – Perguntou o Sr Mauro
– Não cheguei a perguntar o nome – Disse ele.
– Mas, cadê Meg? – Tentei mudar o assunto
– Ela disse que ia no toalete procurar à sua procura, porque você tava demorando. – Respondeu a Sra Cecilia
– Hum, ok então.
Eu e Gabriel nos olhamos e rimos.
Eu estava com sérias dúvidas sobre como Meg chegou no garoto, quais foram o truques de sedução? Depois ela teria de me contar tudo.

Parte 16

– Meg, vou ao banheiro, já volto.
– Espera! Vou contigo. – Disse ela se levantando
– Hum... Acho melhor não, volto rápido – Falei tentando convencê-la
– Ah, ok então – Falou ela sentando-se novamente
Saí em direção ao banheiro, mas desviei e fui até o jardim, e lá estava ele na mesma posição que antes, cheguei um pouco perto, mas hesitei e decidi voltar, ele me detestava não havia nada que eu pudesse fazer.
– Oi – Escutei o dizer com uma voz fraca. Olhei pra trás e percebi que ele tinha me notado.
– Oi, é... é que, então... estão sentindo sua falta na mesa, estão preocupados, mas se não quiser ir, eu posso dizer que te conversando com alguém – Falei, mas na verdade eu que estava sentindo falta dele lá, e eu que estava morrendo de preocupação, mas eu não falaria isso pra ele. E o mais incrível era como perto dele eu não conseguia falar sem gaguejar, as palavras se confundiam, minha mente ficava completamente conturbada.
Eu ficava tão ridícula na frente dele, tão idiota.
Até que eu olhei em seu rosto e vi lágrimas quase secas ainda rolando lá.
– Você ta chorando? – Perguntei sentando em sua frente
– Não to não
Coloquei minhas mãos trêmulas em seu rosto e enxuguei uma lágrima que caía.
– Tá sim – Falei enquanto retirava a mão
– É, acho que sim – Falou como se tivesse perdido uma luta
– O que aconteceu? – Perguntei – Se quiser falar, é claro. Se não quiser...
– Não, não – Ele me interrompeu – Não é nada demais, é só que... eu vejo as famílias todas juntas, e me lembro da minha, é que bate uma saudade – uma lágrima escorreu de seus olhos – Eu me pergunto porque foi assim, porque foi comigo – Ele parou – Desculpa, você não precisa ficar ouvindo...
– Não, continua – Falei
– É que eles eram tudo pra mim, meu suporte. Eu tenho meus tios, tenho Meg, mas não tenho meus pais nem minha irmã. Eu sei que não devia me sentir assim tendo eles, eu sei que to sendo ingrato. Mas é inevitável. E não dá pra comparar ou substituir pai e mãe. – Então ele parou e abaixou a cabeça novamente e eu me permiti afagar seus cabelos enquanto falava.
– Eu acho que te entendo. Eu não perdi meus pais como você, mas eu também me sinto só, eles vivem pro trabalho, e acham que me dando conforto fazem seus papéis. Eu só queria um pouquinho da atenção deles, mas há muito tempo eles não fazem isso. Digo, não me dão atenção, sabe?
– Não, eu não sei – Disse ele com a expressão confusa – Olha, eles estão ali – Ele apontou pro salão – Eles estão lá, eles podem não te dá a atenção que você quer, eles podem não ser os melhores pais do mundo, mas eles acham que estão sendo bons pais assim. Eles acham que você está feliz e mesmo você não estando. Lá estão eles, você pode ir e abraçá-los agora mesmo, você pode ter uma conversa e talvez eles mudem – Ele estava falando como se não agüentasse mais ficar calado e cada vez mais escorriam lágrimas por seu rosto – Você ta entendo o que eu to tentando dizer? – Não era bem uma pergunta mas mesmo assim acenei a cabeça como um sim – É que enquanto há vida, há possibilidade de mudança, há esperança – Ele abaixou os olhos – Mas quando não há vida, quando simplismente... morrem. – Ele parou como se não conseguisse mais pronunciar uma sequer palavra, chorava, muito pior que antes.

Parte 15

Meg vinha na frente, ela estava com os cabelos soltos, com a roupa que comprou no shopping e como sempre, linda. A Sr Cecília usava um vestido prata de alças finas com um xale em seu ombro e um salto alto fino preto. O Sr Mauro usava um terno cinza escuro com uma gravata preta por dentro. Os dois vinham juntos com os braços dados, e por ultimo vi Gabriel vindo de cabeça baixa. Por um momento achei que tudo tinha parado, eu só conseguia enxergá-lo, não via mais ninguém, mais nada, apenas ele, que estava mais lindo que nunca, vestia uma camisa social, daquelas do terno, com um blaiser desabotoado por cima, uma calça jeans preta e um tênis, pela primeira vez vi seus cabelos todo certinho, ele estava super meigo, completamente perfeito. Mas parei de observá-lo quando senti os lábios de Meg dando um daqueles beijos de meia hora em minha bochecha como cumprimento, depois cumprimentou meus pais com um “Olá”, e ficou ao meu lado enquanto Gabriel dava um “Oi” bem seco para eles e passou direto por mim. Ok, eu não esperava que ele fosse a pessoa mais simpática do mundo comigo, mas não pude deixar de criar alguma coisa parecida com expectativa, e fiquei decepcionada com a atitude dele, ah, ele não morreria se desse um Oi daquele direcionado a mim também.
– Vamos Bia! Vamos pra mesa. – Disse Meg.
Nós fomos nos sentar na mesa principal, ela ficava à frente das outras e era um pouco maior. Logo a banda começou a tocar, era um som ambiente e agradável, Jazz. Não que eu escutasse esse tipo de música, mas era algo refinado e calmo. Perfeito pra ocasião.
– Ai, Bia que é isso tocando?! Não tinha algo mais animado não? – Falou Meg fingindo decepção
– Meg... olha em volta, isso é um jantar tipo que formal, não uma boate. – Falei rindo
– É mesmo – Disse Meg enquanto olhava. – E até que tem uns garotos... bonitos. – Falou quase babando enquanto olhava para uma mesa no final do salão, tinha um menino que parecia... É. Bonito, ou melhor dizendo, lindo. Ele conversava com a família, tinha os cabelos escuros e arrepiados, a pele clara, os olhos não dava pra ver muito bem por causa da distância, tinha um físico legal e parecia ter uns 19 anos. Muito provavelmente eu tinha o cumprimentado na entrada, mas estava tão ansiosa pela chegada de Gabriel que com certeza não percebi. Falando nele, eu não tinha o visto desde que ele passou por mim na entrada, desviei o olhar do garoto e olhei em volta, não havia nem sinal dele.
– Cadê o Gabriel?
– Deve ta por aí, ele não tava muito afim de vim, só veio porque eu sou A Meg. – Disse ela. – Quer ir procurar por ele?
– Er... – Hesitei. – Bom, acho que ele não vai se perder – Falei tentando não parecer interessada.
– Então ta, mas eu queria tanto passar por ali. – Disse Meg olhando pro garoto novamente.
– Uau Meg, gamou hein. – Falei rindo
– E como – Falou ela sem desviar o olhar, e com uma voz... digamos, um pouco safada.
Os pais dela chegaram à mesa e também perguntaram por Gabriel, de modo que pediram pra que fossemos procurar por ele. Na hora eu gelei, mas não tinha como dizer não.
– Por mim, vamos. E aí, Bia?
– Er, vamos.
Nos retiramos e andamos entre as mesas procurando por ele. Meg preferia claramente procurar pelas mesas do fim do salão, ela dava algumas olhadas esclarecedoras pro garoto e ele correspondia. Mas não encontramos quem estávamos procurando por lá, então fomos procurar lá fora, olhamos e nada.
– Onde se enfiou esse garoto?!
– Bem, não sou eu que sei – Falei e enquanto virávamos o vi sentado por trás da piscina, onde não tinha ninguém. Eu não podia acreditar que ele tava no meu jardim, no meu refugio. Não vou negar que senti uma pontada de ciúmes, nada sério, mas ali era meu lugar. Ele estava com a cabeça entre os joelhos, imóvel. Meg pareceu não tê-lo notado, continuava resmungando sobre como ele sumia do nada, achei melhor, até porque ele não estava com aspecto de querer alguém por perto.
– É, Meg... – Falei enquanto virava ela e puxava-a em direção ao salão novamente – Vamos pra mesa, ele deve ta por aí, acho que não procuramos direito. – Falei tentando convencê-la. Ela deu de ombros e fomos pra mesa.
– Pai, mãe, não achamos, mas ele deve ta por aí – Falou ela usando minhas palavras.
– É, ta certo. Ele deve ter conhecido alguém. – Disse o Sr Mauro
Minha mãe e meu pai já estavam na mesa, eles conversavam com os pais de Meg sobre o que vinha acontecendo em suas vidas, ou melhor, em seus trabalhos. Eu não prestei atenção, minha mente só desejava estar perto de uma pessoa. Eu precisava de algum contato com ele, mesmo que isso fizesse as coisas piorarem, mesmo que ele não me quisesse por perto. Decidi ir até o jardim.